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| O Gato Preto, a cadeira de rodas e a guria da saúde coletiva |
No início das aulas procurei não expor muito minha personalidade, sempre ouvi muito da minha mãe que muitas vezes não se vê o colega no próximo semestre e se vê estão em turmas diferentes, mas ao ver como a Saúde Coletiva possui uma certa marca de seguir com uma turma única resolvi que ser tão reservada não tinha mais motivo. Passei a sentar junto com os colegas em vez de distante e até a passar o intervalo com eles em vez de ficar na sala lendo, conheci mais sobre os colegas e deixei-me conhecer por eles.
Algo que todos passaram a ter conhecimento em pouco tempo foi a minha paixão por gatos, tenho oito, sempre que fico triste ou estou precisando de apoio procuro meus gatos para abraçar, santas criaturas fofas capazes de colorir os dias cinzas! Pretinho é um que sabe a hora em que saio para a aula e começa a miar atrás de mim e quando retorno faz algazarra. Tudo bem, eu admito ter uma tendência a falar muito mais dos outros do que de mim, não acho interessante falar que sou desse jeito e ajo dessa forma, mas agora faz-se necessário pois já estamos todos íntimos devido ao tempo de convívio, quem sabe oficializar? Falar o que realmente acontece aqui dentro?
O primeiro semestre em Saúde Coletiva tornou-me uma pessoa muito mais atenta às pessoas ao meu redor, um novo olhar foi revelado sobre relacionamentos, medicalização, cuidados com pessoas idosas, críticas ao governo, saúde e doença. Tornei-me muito mais questionadora, inquieta e descontrolada, não são poucas as vezes em que penso que não irei dar conta dos prazos ou corresponder a qualidade e assim acabo tendo crises de enxaqueca e coçando muito meus braços. Até nesses momentos de aflição física começo a refletir, "estou coçando por que estou nervosa ou por que está coçando?", "estou sendo uma daquelas pessoas que abrem mão da saúde por algum compromisso?". Sempre ouvi que eu superestimava a faculdade e talvez pudesse frustrar-me, mas não acredito que o que estou passado agora seja devido a isso, mas sim por ser algo diferente de tudo que havia participado antes.
Tenho certeza que meus colegas conseguem ver isso em mim pois alguns já perguntam se estou desanimando do curou ou pensando em desistir, costumo ser a pessoa que no grupo do whatsap avisa das tarefas que estão com prazos curtos manifestando uma vontade súbita de sumir. Mas para minha alegria meus colegas respondem com um pequeno espanto e já começam a fazer piada com o meu desanimo, fazendo do meu dia cinza um pouco mais feliz, eu disse que sou extremante emotiva e o fato de quase chorar lembrando desses momentos comprova. Se juntasse todos os momentos em que chorei nesse semestre era possível fazer um vídeo de três minutos. Além da empatia já narrada nas muitas das vezes que precisei apresentar-me, sou chata em relação a prazos, sempre tento ajudar os outros pois esta é a maneira mais rápida de mudar o mundo: ajudando o próximo, do micro transporta-se para o macro.
Algo que tocou muito fundo durante o semestre foi a morte do meu pai, em novembro de 2013 ele sentiu um mal estar e encaminhou-se para o "postinho", tendo sua pressão conferida foi levado por uma ambulância até o hospital mais próximo. Durante o trajeto ele sofreu uma parada cardíaca e quando chegou ao hospital precisou ser entubado pois um pulmão já havia morrido. Ok, ok, o que é importante ressaltar nessa trágica história é que passei a olhar diferente até mesmo para ela, em uma aula com a Prof. Lisiane discutimos sobre planejamento, reorganização de atendimento e acolhimento nas centrais de atendimento, hoje enxergo que se não fosse a prática de acolhimento dos profissionais da central de atendimento onde meu pai buscou assistência, ele poderia ter tido um destino muito pior, pois aquele era o único lugar que ele podia contar na cidade onde residia, o hospital que transferiram-lhe era em outra cidade, que não poderia chegar lá a tempo de ter a parada cardíaca. Sabendo disso hoje sinto uma eterna gratidão à pratica do acolhimento e uma tristeza inquietante por aqueles que não tiveram a mesma sorte que meu pai. Isso incetiva-me mais a seguir no curso, a fase de adaptação é sempre difícil, mas eu realmente acredito que me achei dentro da Saúde Coletiva. Almejo buscar soluções para os problemas da sociedade e soluciona-los, transformar saúde acessível a todos.

Tu disse que o meu texto tinha sido emocionante, mas não é nada comparado ao teu. Tu disse coisas que me fizeram pensar que não escolhemos o tema do seminário de antropologia a toa, e sim porque para nós a morte talvez seja mais natural do que para outras pessoas. Meu pai faleceu quando eu tinha 6 anos e eu tive que me adaptar a essa situação desde pequeno. Talvez seja mais natural do que deva ser, ou talvez não.
ResponderExcluirUma vez morei com uma tia minha durante um tempo, em São Paulo, e nós tínhamos 30 gatos. O que eu mais gostava era da independência deles e como aproveitavam o tempo deles numa boa, mas que a vontade de voltar para casa e estar com quem gostam é tão grande quanto essa "solidão" deles.
Penso tbm que o curso despertou coisas boas em todos nós, e de certa forma nos modificou, porque não somos as mesmas pessoas que éramos quando iniciamos esse caminho. Gostaria que todos se formassem juntos, mas acho muito difícil. Vamos seguindo. Como tu mesmo disse: a semente é forte!